Artigo de Enio Pontes, professor titular da Universidade Federal do Ceará e diretor de Ciência e Tecnologia do Proifes-Federação
O Brasil atravessa um momento decisivo para rediscutir seu projeto de nação, e é indispensável que ciência, tecnologia e inovação ocupem o centro dessa agenda. Em um cenário global cada vez mais marcado por crises ambientais, desigualdades sociais e disputas geopolíticas por recursos estratégicos, a ciência e a tecnologia assumem um papel central na construção de modelos de desenvolvimento mais equilibrados, autônomos e duradouros, tendo como vetor o conceito de sustentabilidade.
Mais do que replicar soluções internacionais, é necessário forjar um caminho próprio, enraizado na realidade brasileira, que articule saber científico, inclusão social e preservação ambiental. Nesse esforço, as universidades públicas têm papel central: são responsáveis por mais de 90% da produção científica nacional e se tornaram polos de formação, pesquisa e extensão com impacto direto no território.
A ciência brasileira já oferece respostas concretas aos grandes desafios nacionais: tecnologias para agricultura sustentável, desenvolvimento de fontes renováveis como o hidrogênio verde, estratégias de proteção à biodiversidade e estudos sobre mudanças climáticas. O avanço em áreas estratégicas como inteligência artificial também se impõe — com urgência — como condição para que o país deixe de ser consumidor passivo e se torne produtor autônomo de tecnologia.
Contudo, para que a ciência cumpra sua função transformadora, é preciso que ela seja tratada como política de Estado. Isso exige financiamento estável e desburocratizado para o FNDCT, CNPq, CAPES e Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, além da valorização dos profissionais que fazem a ciência acontecer — pesquisadores, técnicos, professores e estudantes. A ciência não prospera sem condições adequadas de trabalho e remuneração digna.
Nos últimos anos, avanços importantes foram registrados. Segundo dados da FAPESP, entre 2020 e 2024, o orçamento empenhado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) acumulou crescimento de cerca de 160% em termos nominais, saltando de R$ 3,4 bilhões para R$ 8,7 bilhões. Em termos reais, o aumento superou 100%. Esse desempenho refletiu diretamente na recuperação da capacidade de investimento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), cuja parcela não reembolsável passou de R$ 928 milhões para R$ 6,4 bilhões — uma expansão nominal de mais de 580% e real de 430%. Isso só foi possível graças à Lei Complementar nº 177/2021, que proibiu limites à sua execução orçamentária, e à maior arrecadação nominal do fundo, alimentada por fontes setoriais e retornos das operações de crédito da FINEP.
Tais números sinalizam uma virada importante, mas ainda insuficiente diante das necessidades de um projeto nacional sólido e robusto. Popularizar a ciência, democratizar o conhecimento e articular universidades e institutos às demandas concretas da sociedade são condições para que a produção científica influencie diretamente na melhoria da vida cotidiana dos brasileiros, sobretudo das populações mais vulneráveis.
A 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI), realizada em 2024, consagrou esse entendimento. O Livro Violeta, documento final do evento, sintetiza diretrizes para uma política de Estado que coloque a ciência a serviço da superação das desigualdades, da preservação ambiental e de um desenvolvimento baseado no conhecimento. Agora, o desafio é tirar o Livro Violeta do papel, transformando suas orientações em ações concretas: ampliar o financiamento público, fortalecer redes de pesquisa, criar programas de popularização da ciência e afirmar o direito ao conhecimento como dimensão da cidadania.
Neste horizonte, a realização da COP 30, em Belém, em 2025, representa mais do que um evento internacional: é a chance histórica de reafirmação do Brasil como liderança global em sustentabilidade, biodiversidade e transição energética. Trata-se de uma oportunidade de consolidar a ciência nacional como base das decisões políticas de alcance planetário.
A construção de um Brasil soberano, sustentável e socialmente justo exige mais do que discursos: requer compromissos concretos com a ciência como bem público, com a valorização de quem a produz e com sua integração às urgências do país. É tempo de afirmar, com clareza e coragem, que o futuro nacional dependerá da nossa capacidade de transformar conhecimento em política, pesquisa em ação e inovação em justiça.
Não há soberania sem ciência, nem sustentabilidade sem tecnologia socialmente orientada. Recolocar a ciência no centro do projeto de país é optar por um futuro movido por inteligência coletiva, inclusão cidadã e responsabilidade com as próximas gerações. Um país que valoriza sua ciência, protege suas instituições de pesquisa e investe na formação de seu povo é um país que escolhe caminhar com autonomia, dignidade e visão de futuro.
*O artigo expressa exclusivamente a opinião do autor
Fonte: Jornal da Ciência